“Misoginia mata mulheres. Misandria deixa meninos chateados na internet.”


Fonte:   https://ocontraditorio.com/ladodireitodaequidade/feministas/autoras/nao-me-kahlo/misoginia-mata-mulheres-misandria-deixa-meninos-chateados-internet/  

— Bruna Leão, Não Me Kahlo, 2015.

Toda vez que postamos algo de humor com tom misândrico na nossa página, chove comentários críticos, principalmente em defesa do sentimentos do homens, como isso “não é feminismo” e que “não podemos fazer o mesmo que eles fazem conosco”.
Veja bem, não estamos fazendo a defesa de que o feminismo odeia homens, estamos usando o humor. E o que isso difere do humor que homens usam pra reforçar o machismo na nossa sociedade? Tudo.
Vamos começar pelo fato que vivenciamos relações assimétricas de gênero: mulheres sendo consideradas historicamente como inferiores e homens como superiores. O humor voltado a rir dessa situação histórica de opressão que é o machismo, é um humor, como dissemos, que reforça as desigualdades de gênero, e por muitas vezes a legitima e banaliza. O oposto nunca é verdadeiro, simplesmente porque o contexto social é o mesmo. Não há como, levando em consideração o mesmo contexto social de dominação masculina, que uma piada que tenha como alvo o homem e outra que tenha como alvo a mulher se equiparem.
O humor misandrico é somente isso: humor. A misandria não é uma opressão sistemática e institucionalizada. Quando “odiamos” homens, nós os magoamos. Quando homens nos odeiam, eles nos matam. Por isso é difícil levar a crítica da misandria a sério: ela não tem poder de ser nada além disso. É um humor que consiste em elevar uma situação ao absurdo, considerando a nossa história de opressão. Um exemplo fácil de se imaginar foi descrito neste blog (em inglês):
“Em seu nível mais básico, misandria irônica funciona como uma língua estirada a um valentão no parquinho: quando a ativista dos direitos dos homens bradou insultos à escritora feminista Jessica Valenti no twitter mês passado, ela postou uma foto sorrindo usando uma camiseta escrito “EU TOMO BANHO NAS SUAS LÁGRIMAS DE OMI”, e dedicou-a aos misóginos mimimizentos.”

Não há como ter uma defesa política séria de que mulheres sairão matando homens, beberão suas lágrimas, cortarão seus pênis, etc. Não existe institucionalização de opressão masculina, o que significa que essas piadas não não são suficientes para embasar um discurso de ódio contra o sexo masculino e não terão os efeitos reais de ódio ao homem.
Então, estamos rindo da situação absurda que seria se homens fossem o “sexo inferior” e nós tivessemos algum poder de oprimi-los como fizeram e fazem conosco. Você pode não achar graça, mas definir que é errado pois “é o mesmo que fazem com a gente” ou “isso não é feminismo”… não.
Não estamos subindo em uma tribuna e defendendo o extermínio de homens. Não estamos elaborando teses acadêmicas demonstrando a incapacidade masculina de ocupar cargos políticos. Não estamos fazendo pesquisas científicas pra provar que homens têm cérebros menores. Não estamos pregando em um centro religioso que homens devem ser submisso às mulheres e determinando seu lugar limitado na sociedade.
Para o homem, ser alvo de uma piada é algo momentâneo. Logo, ele voltará a sua vida normal onde é dono do poder político, social e econômico, e levará uma vida de privilégios de gênero. O que esse humor muda substancialmente na sua vida? Meros segundos de chateação na internet.

— Bruna Leão, “Humor misândrico pode?”, Não me Kahlo, 19.03.2015. http://www.naomekahlo.com/#!Humor-mis%C3%A2ndrico-pode/c1a1n/5508f64d0cf2458597dd36dd