“Líderes feministas são stalinistas obcecadas com aborto e assédio sexual.”


Fonte:   https://ocontraditorio.com/ladodireitodaequidade/igualistas/camille-paglia/lideres-feministas-stalinistas-obcecadas-aborto-assedio-sexual/  

— Dra. Camille Paglia (1947–), Universidade das Artes da Filadelfia, EUA, 2006.


A feminista Camille Paglia, 58, não esconde o rancor quando o assunto é o “politicamente correto” do establishment liberal dos Estados Unidos, grupo cujo pensamento está mais associado à esquerda no país e que se contrapõe aos conservadores. Com língua afiada, queixa-se da uniformização e esterilidade do pensamento acadêmico, da lavagem cerebral feminista, da hipocrisia da esquerda moderna e resume o problema: “O liberalismo está intelectualmente exausto”.

A derrota mais recente aconteceu mês passado, quando Larry Summers, reitor da Universidade Harvard, sucumbiu à pressão e decidiu deixar o cargo. Poucos se atreveram a defendê-lo em público e incorrer na mesma pecha de preconceito, racismo e falta de sofisticação acadêmica. Entre esses poucos, Paglia, mulher que se descreve como persona non grata dos campi mais prestigiosos dos Estados Unidos, mas é uma das intelectuais mais influentes no país pela atitude libertária.

Para ela, Summers, que foi também secretário do Tesouro do governo Bill Clinton, errou apenas na conduta, não no mérito das polêmicas que criou. Acovardou-se diante de uma luta válida contra o “politicamente correto entrincheirado” de Harvard, que também corrói outras faculdades de elite do país. Arquiinimiga do feminismo tradicional e “stalinista”, considera que a “gafe” de Summers sobre as diferenças inatas de aptidão científica entre homens e mulheres deveria ter suscitado a inclusão da biologia no currículo de estudos de gênero, não num pedido de desculpas.

Em palestra em janeiro de 2005, Summers causou polêmica internacional ao propor uma investigação sobre as diferenças e a variabilidade dessas habilidades entre os sexos para explicar o número inferior de mulheres cientistas e engenheiras. “Nada me agradaria mais do que estar errado”, disse Summers então. Porém foi pressionado a recuar e dizer que foi simplista e não tinha embasamento empírico para sustentar sua afirmação. Nisso, Paglia viu mais uma vitória do politicamente correto feminista que promove teses de que todas as diferenças de gênero são resultado de condicionamento social.

Em 2001, Summers confrontou o notório professor Cornel West, cuja produção acadêmica considerava insuficiente para seu posto. West, acadêmico negro, trocou Harvard por Princeton, na esteira de um debate mal resolvido sobre raça e mérito. Para Paglia, um exemplo de mimos dados a acadêmicos medíocres, protegidos pelo politicamente correto.

Paglia não poupa ataques a Harvard. Avalia que Summers fracassou na reforma de uma instituição mais prezada pela tradição e rede de contatos profissionais do que pela qualidade de educação.

Autora dos livros “Personas Sexuais”, “Sexo, Arte e Cultura Americana” e “Vamps e Vadias”, Paglia está promover seu novo best-seller de análise poética, “Break Blow Burn” (sem título em português). Entre aulas e viagens, concordou em responder por escrito a perguntas da Folha. Leia a seguir trechos.

Folha – O que você acha que Larry Summers estava tentando mudar em Harvard?
Camille Paglia –
O politicamente correto entrincheirado, o elitismo arrogante e uma indiferença quanto à qualidade do curso de graduação.

Folha – Por que ele fracassou?
Paglia –
Ele teve pouca habilidade diplomática. Ele cometeu fiasco após fiasco, recorreu a brados casuais e espontâneos em vez de apresentar posicionamentos públicos razoáveis para estimular uma política de reforma.

Folha – O episódio Cornel West foi um exemplo de hipocrisia liberal?
Paglia –
Eu não sou uma admiradora de West, que nunca produziu livros do porte de seu ranking acadêmico cômodo e salário estonteante. Mas eu também não acho que cabe a um reitor de uma universidade cutucar ou provocar um professor sênior da forma que Summers fez com West.

Se o Summers quisesse travar uma guerra contra a superpolitização do recrutamento de acadêmicos em Harvard, deveria ter anunciado um programa de ação. Agora, a fúria de West e sua ida para Princeton foram uma eloqüente demonstração da indulgência e do mimo aos quais essas estrelas estão acostumadas.

Folha – E o chamado episódio das “mulheres na ciência”?
— O Summers também errou no tratamento da questão de mulheres na ciência. Ele estava correto em levantar a questão biológica como fator de diferença entre os sexos, algo que as feministas atribuem unicamente à injustiça social. Mas ele estava ingenuamente despreparado para o bombardeio e se entregou a seus críticos numa rapidez vergonhosa, como um cão com o rabo entre as pernas.

Poderia ter sido um momento importante para o feminismo americano, a introdução de biologia nos estudos de gênero. Hoje a palavra “natureza” sequer pode ser pronunciada. Essa área está cheia de propaganda, retórica e pensamento em grupo. Os alunos estão sofrendo lavagem cerebral. A maternidade é desprezada e os homens são vilanizados.

Folha – Você avalia que a graduação de Harvard depende muito de reputação e virou um ímã de alunos e professores carreiristas?
Paglia –
A educação universitária de elite nos Estados Unidos virou uma indústria comercial frenética, um espetáculo repulsivo de esnobismo de marca e materialismo explícito. Pais que pagam mais de US$ 40 mil ao ano por um diploma de Harvard para seus filhos estão ávidos por status, mas não há evidência de que a educação em Harvard seja superior à de centenas de outras boas universidades.

Folha – Há recompensa para pensamento independente no mundo acadêmico?
Paglia –
Certamente não. O pensamento independente foi universalmente silenciado ou isolado. Eu sou persona non grata em quase todos os campi no país, e leciono em uma pequena faculdade de artes. A educação universitária está cada vez mais estéril por causa da autodestruição das ciências humanas desde os anos 70.

Folha – O que está acontecendo com o politicamente correto no mundo acadêmico?
Paglia –
Muito pouca diversidade de opinião política é permitida entre os professores de humanidades nos Estados Unidos. Só há uma forma de pensar para uma variedade de assuntos, de geopolítica a gênero.

Folha – Isso se traduz em que para os alunos?
Paglia –
Os estudantes estão sendo doutrinados pelo dogma do relativismo e do niilismo por professores pós-estruturalistas ou pós-construtivistas que parecem não ter valores ou paixão real pelo aprendizado. Por exemplo, Michel Foucault considerou “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, uma influência marcante na geração de pensadores da França pós-guerra. Eu sempre desprezei Godot pelo pessimismo reacionário e visão neurótica da fragmentação da cultura. A grande forma de arte da minha geração foi o rock, música empática, emocional, sensorial e conduzida pelos ritmos sublimes da natureza.

Folha – E como o feminismo se moldou pelo politicamente correto nos últimos anos?
Paglia –
No começo dos anos 90 eu declarei guerra contra o estalinismo do politicamente correto no establishment feminista. Isso causou controvérsia, especialmente minha defesa da pornografia e das revistas de moda. Mas, graças à Madonna, minha ala do feminismo ganhou a batalha. Ela influenciou uma geração de mulheres que abraçou novamente o sexo e a beleza.

Folha – E hoje? As mulheres não estão se focando demais no chauvinismo americano?
Paglia –
As feministas foram marginalizadas nos Estados Unidos por causa dos excessos dos anos 80 e início dos 90. A visão é negativa, de estridência e extremismo. É uma situação desconcertante, mas é culpa das próprias líderes feministas. Elas ficaram obcecadas com aborto e assédio sexual e negligenciaram assuntos muito mais importantes que afetam as mulheres no mundo. Eu acredito em igualdade de oportunidade: os obstáculos para o avanço devem ser removidos, mas sem proteções especiais.

Folha – E as cotas raciais, ajudaram ou atrapalharam?
Paglia –
A ação afirmativa, como diretriz federal, nunca deveria ter se tornado um sistema de cotas. Deveria apenas ter auxiliado negros da classe trabalhadora a obter acesso à educação universitária que não poderia ser bancada por outros meios. Mas a ação afirmativa foi seqüestrada por mulheres brancas no meio acadêmico; esse é o verdadeiro escândalo. Em todo campus da Ivy League [designação das mais prestigiosas universidades norte-americanas] há exemplos gritantes de mulheres brancas e medíocres que fizeram chantagem para obter cargos altos e lucrativos. São elas a pior fonte do politicamente correto.

Folha – Você é democrata?
Paglia –
Registrada e horrorizada com a desordem do partido.

Folha – Por que os democratas não conseguem reagir?
Paglia –
Não há liderança, coragem, programa para o futuro. É assustadora a patética inabilidade dos nossos senadores de capitalizar os erros de George W. Bush.

Folha – Como vê a ascensão do neoconservadorismo?
Paglia –
Eu respeito, mas não concordo com o ponto de vista conservador. Eles estão certos ao dizer que “o liberalismo está intelectualmente exausto”. Os democratas já perderam o apelo com o público. Estamos numa era de terrorismo, e isso pode durar um século. Após o fiasco do Vietnã, os democratas ficaram antimilitares, e essa é uma das razões pela qual são vistos como incompetentes.

Folha – E a questão religiosa?
Paglia –
Essa é a segunda razão pela qual o neoconservadorismo aumentou seu poder. O humanismo secular, com o qual estou comprometida, tornou-se vazio. Eu sou atéia, mas reverencio as grandes religiões como formas espirituais de relacionar a humanidade e o cosmos. Os neoconservadores oferecem a sensação de tradição, estabilidade e propósito para quem repele o individualismo narcisista e hedonista do nosso tempo. Minha estratégia como escritora é oferecer a arte como uma alternativa à religião.

— Leila Suwwan, “Para feminista, esquerdismo acadêmico bloqueia debate”, Folha de São Paulo, 27.03.2006. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2703200619.htm